Arquivo de dualidade onda-partícula

Matéria é Movimento Retardado – “Um véu de tristeza inexplicável”

Posted in Física, Filosofia, Literatura, Traduções with tags , on 3 de fevereiro de 2011 by hiperdimensao

O título deste post remete a um capítulo de um livro há muito esquecido, “Etidorhpa”. O livro, narrado por Llewellyn Drury, nos conta sobre seu encontro com um homem muito misterioso que lhe entrega um manuscrito contando sobre sua jornada até o centro da Terra, fazendo-o prometer publicar um livro 30 anos depois. Llewellyn Drury aceita o contrato, mas desiste da promessa. Quem acaba por produzir o livro é John Uri Lloyd. O livro é, portanto, uma história dentro de outra história.

Este livro pode ser lido na íntegra em Forgotten Books.

O que mais chama atenção neste livro, além da metalinguagem, é a grande sabedoria filosófica de alguns personagens. Sabedoria que ultrapassa os limites da ciência na época em que foi escrito – 1897.

Segue um trecho, de livre tradução minha:

“É possível – não é? – para você imaginar uma contínua saraivada de bolas de ferro passando perto de você em uma linha, em uma direção horizontal com considerável velocidade. Suponha que uma placa de vidro fosse gradualmente movida de forma que uma de suas quinas fosse atingida por uma das bolas; então toda a lâmina de vidro seria fragmentada pelo choque, mesmo que o projétil tenha atingido somente um único local do vidro, o ponto de contato cobrindo apenas uma pequena área. Imagine agora que a velocidade da saraivada de projéteis seja aumentada em mil vezes; então a vidraça introduzida no caminho seria finamente cortada, como se fosse com uma lima que tivesse lixado seu caminho sem produzir uma simples fratura radial. Uma pessoa estando perto da saraivada agora ouviria um profundo som parecido com um ronronar ou rugido, causado pela fricção entre os projéteis e o ar. Aumente gradualmente a rapidez de seus movimentos, e esse rugido se tornaria mais agudo, passando de um profundo, grave murmúrio, em um menos grave, e enquanto a velocidade é aumentada, o tom se tornaria mais agudo, e finalmente dolorosamente estridente. Aumente agora a rapidez do trem de projéteis de novo, e de novo as notas seriam diminuídas, voltando novamente e sucessivamente através dos vários tons que se sucederam, e finalmente alcançariam o grave rugido que primeiro chegou aos ouvidos, e com um incremento adicional na velocidade, o silêncio se sucede, silêncio sempre, independentemente do incremento de velocidade. Dessas centenas de milhas por segundo que a saraivada está agora passando, deixe que a rapidez seja aumentada em mil vezes, alcançando em seu vôo milhões de milhas a cada segundo, e para os olhos, a partir do ponto onde o som desapareceu, enquanto a velocidade aumentava, uma indistinta vermelhidão apareceria, um brilho quase imperceptível, indicando ao sentido da visão, por uma linha contínua, o caminho dos mísseis em movimento. De qualquer jeito, a linha seria tão uniforme quanto uma iluminada marca de lápis, apesar de que as várias balas integrantes da trilha estejam separadas uma das outras por milhas de espaço. Deixe agora uma placa de vidro atravessar o caminho, e do ponto de contato, uma chuva de faíscas voaria, e as beiradas do vidro juntas a cada lado do orifício aparentariam, depois que se retirasse o vidro, serem sido fundidas. Conceba agora que a velocidade das balas sejam dobradas e triplicadas, de novo e de novo, a linha de luz vermelha se torna mais clara, e então brilhante, e finalmente enquanto a velocidade aumenta, chega um ponto onde puro branco resulta, e ao sentido humano a trilha seria um algo contínuo, tão sólido quanto uma barra de metal em calor branco, e (inclusive se as balas estivessem separadas por mil milhas), um homem com seus sentidos não poderia fazer prova de sua existência separada. Aquele pedaço de vidro ou qualquer substância, até mesmo aço ou diamente, que atravessassem o caminho agora seriam simplesmente derretidos, sendo a porção excisada e carregada para fora do caminho nem se parecendo com cintilações nem com fragmentos de matéria. O sólido instantaneamente se liquefaria, e se espalharia como um fino filme sobre a superfície de cada bola branca, cada massa quente de metal voador, agora, para qualquer condição, essencialmente uniforme como uma barra de ferro. Aumente loucamente a velocidade para milhões em cima de milhões de milhas por segundo, e o calor irá desaparecer gradualmente assim como o som, enquanto a brilhante luz irá passar de volta sucessivamente através das matizes de cores primárias que são atualmente conhecidas pelo homem, começando pelo violeta, e terminando com o vermelho, e enquanto o vermelho desaparece gradualmente o trem de balas irá desaparecer para o sentido do homem. Nem luz, nem som irão acompanhar a saraivada, nem o olho humano, nem o ouvido humano poderão perceber sua presença. Deixe uma placa de vidro ou qualquer outro objeto atravessa-lá de borda a borda, e não dará ao sentido humano qualquer evidência de sua existência; as moléculas do vidro se separarão na frente para se juntarem atrás, e o trem em movimento passa através dele tão livremente quanto a luz, deixando a superfície do vidro inabalada.”
“Espere,” eu interrompi; “isso seria como um tipo de matéria passando através de outro tipo de matéria sem perturbar uma a outra, e há uma lei física que duas substâncias não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.”
“Essa lei dá conta enquanto o homem assim entende o assunto, mas as balas não são mais matéria. Movimento de massa foi primeiramente modificado em movimento de moléculas, e movimento de moléculas se tornaram finalmente aumentados em movimento de entidades de força livre enquanto as balas se desintegraram em corpúsculos moleculares, e então se dissociaram em átomos. Nesse último ponto os sentidos da visão e do toque cessaram de serem afetados pela coluna de movimento (nem de massa nem de força), e o próximo pulo na velocidade dos átomos os fez desaparecerem, e o movimento livre intangível, resultou em nada, vazio.”
“Este resultado é o espírito do espaço que a tudo permeia (o ether da humanidade), tão sólido quanto diamante e tão móvel quanto o vácuo. Se você puder reverter a ordem desse fonômeno, e imaginar um retardo irregular da rapidez de tal movimento atômico, você pode ler a história da formação do universo material. Siga a cadeia de eventos de trás para frente, e com o decrécimo da velocidade, movimento se torna matéria novamente, e de acordo com as condições governando a mudança de movimento em matéria, de tempos em tempos os vários elementos sucessivamente aparecerão. Os planetas podem crescer por fora e por dentro, e espaço ethereo pode gerar poeira elemental. Se você puder conceber uma condição intermediária onde puro movimento do espaço se torna parcialmente tangível, e ainda não tão suficientemente grosseiro para ser matéria terrestre, você pode imaginar como tais forças que o homem é familiarizado, luz, calor, eletricidade, magnetismo, ou até gravidade são produzidas, pois esses também são distúrbios no movimento do espaço. Deve ser facilmente entendível que, de acordo com o mesmo simples princípio, outros elementos e forças desconhecidas, agora imperceptíveis às limitadas faculdades do homem, podem ser e são formadas fora e dentro de seu campo de percepção.”

Repare que o personagem aí diz que um sólido, ao atingir uma certa velocidade de deslocamento no espaço, torna-se luz, pura energia.

As principais questões que aqui são levantadas:

Como o personagem tinha o conhecimento sobre a natureza dualística da matéria, sendo que essa natureza foi somente reconhecida depois de realizado o experimento de Young com um elétron de cada vez em 1974?

Como o personagem tinha o conceito de que matéria e energia são, na verdade, transmutáveis entre si, resultado de diferentes formas de manifestação de uma mesma “substância prima”?

Leia o livro. Este é apenas um exemplo, das dezenas que compõe essa fantástica estória – ou melhor, HISTÓRIA.

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